As Obras do Amor

Søren Aabye Kierkegaard
As Obras do Amor, Algumas considerações cristãs em forma de discursos
Oração
Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido,
ó Deus do amor,
de quem provém todo o amor no céu e na terra;
Tu, que nada poupaste, mas tudo entregaste em amor;
Tu que és amor, de modo que o que ama só é aquilo que é por permanecer em Ti!
Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido,
Tu que revelaste o que é o amor;
Tu, nosso salvador e reconciliador,
que deste a Ti mesmo para libertar a todos!
Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido,
Espírito de Amor,
que não reclamas nada do que é próprio Teu,
mas recordas aquele sacrifício do Amor,
recordas ao crente que deve amar como ele é amado,
e amar ao próximo como a si mesmo!
Ó, Amor Eterno,
Tu que estás presente em toda parte
e nunca deixas sem testemunho quando Te invocam,
não deixa sem testemunho aquilo que aqui deve ser dito sobre o amor,
ou sobre as obras do amor.
Pois decerto há poucas obras que a linguagem humana,
específica e mesquinhamente, denomina obras de amor;
mas no Céu é diferente,
aí nenhuma obra pode agradar se não for uma obra de amor:
sincera na abnegação,
uma necessidade do amor,
e justamente por isso sem a pretensão de ser meritória!
As Obras do Amor
“Quando o ser humano, porque o mundo ou outra pessoa o traiu, lhe foi infiel, se entrega ao desespero, qual é ai então a sua culpa (pois não falamos aqui, afinal, de seu sofrimento inocente), senão a de não amar a si mesmo de maneira certa?” p 39
“Oh, no mundo muito se fala de traição e de infidelidade, e oxalá quisesse Deus melhorar isso, pois infelizmente é muito verdadeiro, mas não nos esqueçamos jamais, por causa disso, que o traidor mais perigoso de todos é aquele que cada homem traz dentro de si. Esta traição, quer se trate de se amar de maneira egoísta, quer se trate de egoisticamente não se amar de maneira certa, esta traição é certamente um segredo; por causa dele ninguém se alarma como por causa da traição e da infidelidade; mas será que por isso mesmo não seria importante sempre de novo recordar a doutrina do Cristianismo: de que um homem deve amar o seu próximo como a si mesmo, isto é, como ele deve amar a si mesmo?” p 39
“ele (ciúme) é um fervor para tornar-se doente, uma doença de zelo. O ciumento não odeia o objeto de amor, longe disso, mas ele se atormenta a si mesmo no fogo do amor que corresponde ao seu, e que deveria purificar, acrisolando, o amor que ele tem. O ciumento acolhe, quase suplicando, cada um dos raios do amor que emana da pessoa amada, mas todos esses raios que ele faz convergir sobre seu amor, através da lente do ciúme, e vai queimando lentamente. Por outro lado, o amor que passou pela transformação da eternidade, em se tornando dever, não conhece ciúme; ele não ama apenas como ele é amado, mas ele ama. O ciúme ama assim como é amado; torturado ansiosamente pela idéia de ser ou não amado, ele é igualmente ciumento de seu próprio amor, se por acaso este não seria desproporcional em relação à indiferença do outro; assim como também é ciumento da expressão do amor do outro; ansiosamente torturado pela ocupação consigo mesmo, nem ele ousa confiar totalmente na pessoa amada, nem entregar-se inteiramente, a fim de não dar demais, e por isso constantemente se queima, assim como a gente se queima com algo que não está queimando, senão pelo contato tenso.” p 53
“Somente quando é dever amar, só então o amor está eternamente libertado em feliz independência. Mas aquele amor imediato não era livre, não tem o amante justamente sua liberdade no amor? E por outro lado, seria a intenção deste discurso elogiar a inconsolável independência do amor de si, que permaneceu independente porque não teve coragem para se comprometer, e portanto, porque ficou independente por sua covardia; a inconsolável independência que paira no ar porque não encontrou nenhum refúgio, e é como “aquele que erra por aí, um bandido armado que se recolhe ali onde cai a noite”; a desoladora independência que independente não suporta as cadeias – pelo menos não as visíveis? Oh, longe disso, aliás no discurso anterior, nós lembramos que a expressão para a riqueza máxima consistia em ter uma necessidade; e assim também a expressão verdadeira da liberdade consiste em que haja uma necessidade no ser livre. Aquele, em quem o amor é uma necessidade, certamente se sente livre em seu amor, e justamente aquele que se sabe de todo dependente, de tal modo que tudo perderia se perdesse a pessoa amada, esse sim é o verdadeiro independente. Contudo, com uma condição: que não confunda amor com a posse da pessoa amada. Se alguém dissesse “ou amar ou morrer”, e com isso indicasse que uma vida sem amar não vale a pena ser vivida, nós lhe daríamos inteira razão. Mas se ele entendesse, com aquela afirmação, a posse do amado, e portanto quesesse dizer “ou possuir o amado ou morrer”, “ou conquistar este amigo ou morrer”, então teríamos de dizer que um tal amor só é independente num sentido não verdadeiro. Logo que o amor, em sua relação com o seu objeto, não se relaciona na relação igualmente consigo mesmo, enquanto ele, contudo, é totalmente dependente, então ele é dependente num sentido não verdadeiro, então ele tem a lei de sua existência fora de si mesmo e é portando dependente num sentido efêmero, terreno, temporal.
Mas o amor que se submeteu à transformação da eternidade em se tornando dever, e ama porque deve amar, é independente, tem a lei de sua existência na própria relação do amor para com o eterno. Este amor jamais pode tornar-se dependente no sentido não verdadeiro, pois a única coisa que ele depende é o dever, e o dever é a única coisa que liberta. O amor imediato torna um ser humano livre, e no instante seguinte dependente. O mesmo ocorre com o tornar-se homem de um homem; ao tornar-se , ao tornar-se um “si mesmo”, ele se torna livre, mas no instante seguinte está dependente desse si mesmo. O dever, ao contrário, torna um homem dependente e no mesmo instante eternamente independente. “Só a lei pode dar a liberdade.” Ai, tão frequentemente se acha que há liberdade, e que a lei seria aquilo que amarra a liberdade. Contudo, é justamente o contrário; sem a lei a liberdade pura e simplesmente não existe, e é a lei que dá a liberdade. Também se acredita que é a lei quem faz diferenças, porque não há diferença nenhuma lá onde não existe lei. Contudo, é o contrário; se é a lei que faz diferenças, então é justamente a lei que torna todos iguais diante da lei.
Dessa maneira, este “deves” liberta o amor para uma feliz independência.” p 55-56
“O coração livre não tem nenhuma história, pois quando se entregou ao outro ele ganhou sua história de amor, feliz ou infeliz. Mas o coração infinitamente comprometido com Deus tem história já antes, e por isso compreende que o amor e a amizade são somente um interlúdio, uma contribuição anexa a esta única história de amor, primeira e última. Tu, que sabes falar de maneira tão linda sobre o amor e a amizade, se compreendesses que isto é, contudo, tão somente um parágrafo muito pequeno no interior daquela história eterna: como não te tornarias lacônico levando em conta a brevidade do parágrafo! Tu inicias tua história com o início do amor e acabas junto a um túmulo. Mas aquela eterna história de amor iniciou muito mais cedo; iniciou no teu início, quando passaste a existir, saindo do nada, e tanto é verdade que não voltarás ao nada, como é verdade que ela não acabará no túmulo. Pois quando o leito de morte estiver preparado para ti, quando te recostares para não mais levantar, e só esperarem que tu te vires para o outro lado para morrer, e o silêncio crescer ao teu redor – quando então um depois do outro os teus próximos ficaram para trás, enquanto a morte aproxima-se cada vez mais de ti; quando os mais próximos suavemente forem embora e o silêncio crescer porque somente o mais próximo de todos restou; e quando então o último se inclinar sobre ti e se virar para o outro lado, pois tu te voltas para o lado da morte: um único fica ainda contudo para trás, naquele lado, ele que é o último junto ao leito do moribundo, ele que foi o primeiro de todos, Deus, o Deus vivente – se é que teu coração foi puro, o que só veio a ser amando-O.” p 178
“Eu imagino então um sujeito astuto, um intrigante, um hipócrita; eu me deleito em dotá-lo ainda com todos os dons da sedução, a ele que já está instruído em todos os segredos do engano. O que ele ainda pretende? Quer enganar a pessoa amorosa e (já que, apesar da sua corrupção, ele é bastante inteligente para ver que imenso bem é ser amado,) procura, com sua astúcia, vir a ser amado.” p 272
“O homem rígido e dominador carece de flexibilidade, e carece de complacência para compreender os outros; de cada um, ele exige o que é próprio dele mesmo, quer quee cada um se converta à sua forma, se adapte ao seu padrão de humanidade.” p 304
“O maior de todos os benefícios consiste em ajudar amorosamente alguém a tornar-se tal, tornar-se si mesmo, livre, independente, seu próprio, ajudá-lo a se manter de pé sozinho.” p 308
“Na oração do Senhor, pedimos a Deus para não nos deixar cair em tentação – Deus de misericórdia, pelo menos uma graça: que meu pecado e meu erro sejam tais que o mundo os tenha verdadeiramente por abomináveis e revoltantes! O mais terrível de tudo deve ser, porém, incorrer em culpa, em culpas que clamam ao céu, incorrer em culpa sobre culpa, e novas culpas, sempre de novo, entra dia e sai dia – sem nem prestar atenção a isso, porque todo o ambiente e porque a própria existência se transformaram numa ilusão que faz confirmar à pessoa a opinião de que não foi nada, que a conduta não só não é culpada, mas que é quase meritória. Oh, há crimes que o mundo não chama de crimes e que ele recompensa e quase honra; e no entanto, no entanto eu preferiria – que Deus não permita, mas eu preferiria – chegar à eternidade com três assassinatos em minha consciência de que me arrependeria, do que como um difamador consumado com a terrível e imensurável carga de crimes amontoados ao longo dos anos; crimes que se espalharam em dimensões quase inacreditáveis, que levaram homens ao túmulo, amarguraram as relações mais íntimas, humilharam os mais inocentes simpatizantes, macularam os menores, desencaminharam e corromperam tanto os velhos quanto os jovens, numa palavra, espalharam ao seu redor, em proporções que nem a mais viva imaginação consegue formar uma idéia – essa terrível carga de crimes para os quais eu jamais teria tempo para começar a me arrepender porque o tempo seria usado para novos crimes e porque a imensurabilidade desses crimes me teriam proporcionado dinheiro, influência, quase a consideração e sobretudo uma vida de prazer! Em relação a um incendiário, costuma-se diferenciar se aquele que põe fogo numa casa, sabe se ela é habitada por muitos ou se está desabitada; mas pela difamação por assim dizer incendiar uma sociedade inteira, isso nem é considerado um crime. Barramos o caminho da peste – mas a esta peste, a difamação, que é pior do que aquela do Ocidente, e que corrompe a alma e a mente, abrimos a porta de todos os lares, pagamos dinheiro para sermos contaminados e saudamos como bem-vindo o que traz a infecção.” p 327
“Parece em geral fácil para os homens lançar uma culpa, e até de um assassinato, para a consciência de um outro: mas lançar para trás de si a culpa dele, graças ao perdão – isso parece difícil.” p 333
“Uma ruptura então se produziu; foi o mal humor, a frieza, a indiferença quem os separou; no entanto, um deles rompeu e ele agora diz: “Eu não falo mais com essa pessoa, não a vejo mais.” Mas o que ama diz: “Eu permaneço em meu amor; dessa forma, nós ainda conversamos um com o outro, pois às vezes o silêncio também faz parte da conversa.” p 345


Obrigada por compartilhar essas belissimas citações.
elas fizeram meu encanto por Kierkgeerad
aumentar ainda mais.
Seu espaço é muito costrutivo!Parabéns!
desculpe!-coreção
Kierkegaard*
eu ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
como vc se sente?
Amei esta homenagem a Kierkegaard,
Doce bj de encanto,
SANDRA,
Que maravilha vc postou por aqui…
Sou fã desse grande filósofo a algum tempo já li alguns livros dele, mas este trecho me chamou ainda mais atenção para esta obra.
ótimo Blog..Vc citou partes muito interessantes.
são idéias muito ricas e é muito bom conhecê-las.
Conhece-se Martin Buber? Ele recebeu significativa influência de Kierkegaard, um filósofo também da ala teísta.
Depois, se puderes, leia em meu blog o artigo “Uma Religião para a Rotina” em http://pensarigor.blogspot.com/2008/08/uma-religio-para-rotina.html
Um grande abraço,
Igor
Ouvi falar desse filosofo na faculdade e comecei a pesquisar sobre ele…
certamente é inteligentissimo