“Só concedemos o reconhecimento a um outro livremente e não forçados“. Rudolf Bultmann, Crer e Compreender
A necessidade de reconhecimento faz parte da natureza essencial do ser humano. É bom ser reconhecido. É bom ser estimado. Mas não é isso que me impele a escrever. Antes, é seu aspecto destrutivo, sua perversão. Refiro-me àqueles que querem ser reconhecidos pela sua própria robustez. Àqueles que pretendem violentar a apreciação do outro com base na própria realização. Àqueles que julgam estar o próximo em dívida pelo simples fato de terem sido “presenteados”. Trata-se de “um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos”.
O tipo pervertido, forçado, da necessidade de reconhecimento, por vezes gera repulsa. Que pode ser dupla. O que força descamba na aflição infantil de se julgar merecedor. E o forçado se sente usado. Lispector sintetiza com beleza essa importuna situação: “Ao me usar ela me machucava com sua força; ela me arranhava ao tentar agarrar-se às minhas paredes lisas.” [1]
Essa situação só pode reverter com pura auto-entrega incondicional, em graça, destituída de toda vanglória e segundas intenções. Em liberdade, com aquele amor que se dá pelo próprio prazer criativo de se dar.
[1] Clarice Lispector, A Legião Estrangeira




Sim.
O verdadeiro reconhecimento só pode ser dado espontaneamente.
O reconhecimento é essencial ao ser humano.
Eu apenas sou aquilo que pretendo ser se o meu interlocutor me reconhecer desta forma.
Se eu me apresento como por exemplo um professor, não basta ser contratado por uma instituição de ensino para lecionar uma determinada disciplina.
Eu preciso ser reconheido pelos alunos como professor. São os alunos que reconhecem o professor, ao se achegarem a ele pedidndo esclarecimentos durante e principalmente após a aula.
Da mesma forma estes, somente serão alunos de fato, se o professor reconhecê-los como tais, ao levar a sério a preparação das aulas e respondê-los da melhor forma possível.
Os exemplos são infinitos, mas o ponto é: nós somente somos aquilo que nos é reconhecido livremente pelo outro.
A vida é uma batalha dialética pelo reconhecimento.
Muitas vezes travamos esta batalha inconscientemente.
Aliás, é justamente quando buscamos o reconhecimento despretensiomente, que ele nos é dado mais espontaneamente!
Por isso tenho orgulho em dizer que reconheço Rodrigo Borges como um dos melhores amigos que já tive a honra de ter.
Mais que um amigo, um irmão!
Um grande abraço, Rodrigão!
Ao ler essas palavras maravilhosas lembrei-me de Sartre quanto o mesmo diz: “O inferno são os outros”, que mostra a grande dificuldade de relação e união dos seres. O infernos são os outros, porque quando nos damos para o nosso proximo perdemos algo nosso, transferimos o que é nosso (nosso tempo, nosso espaço, nossos sonhos) para outra vida, e o céu(o que é nosso) é deixado de lado para fazer morada nos outros(inferno). Para melhor compreender, o inferno é a separação, separados do que é nosso, habitamos no inferno(CLARO QUE NÃO CONCORDO 100% COM ISSO, apesar de reconhecer algumas verdades desse pronunciamento Sartriano).
Mais se o inferno são os outros, o sofrimento eterno do inferno é o reconhecimento. Quando transferimos o que é nosso e aquele que recebe tal transferencia não reconhece nosso ato então sofremos pelo descaso e rejeição.
Jesus passou por isso, em Lucas 17:11-17, ele cura 10 leprosos mais apenas 1 volta para agradecer, então Cristo pergunta: – “Näo foram dez os limpos? E onde estäo os nove?”
O reconhecimento é muito importante, torna a existência social mais fácil e útil, porém, os nosso atos (de se doar) não deve ter como alvo o reconhecimento, mais a pessoa a quem vamos se doar.
O reconhecer o outro obriga a reconhecer a si mesmo. Reconhecer alguém como “superior” significa reconhecer-se como “inferior”, entre vários outros exemplos. Por isso o reconhecimento necessita, em grande parte, de humildade, ou acabará se tornando um “reconhecimento destrutivo”, uma necessidade de ser reconhecido, como você mesmo citou.
Por outro lado, o ser reconhecido pelo outro também necessita de humildade. Não se pode fazer algo buscando o reconhecimento, pois algo feito assim só servirá para os outros, nunca para si mesmo. O reconhecimento é natural. Chegará a nós e sairá de nós para os outros de forma natural, desde que não seja buscado, ansiado. É algo necessário, mas não deve se tornar fundamental.
O reconhecimento é necessário e agradável a quem reconhece e a quem é reconhecido, por isso tenho o imenso prazer em reconhecer em você o irmão mais velho que eu não tenho, o meu Rodrigo Borges preferido.
Rodrigo, muito bom pesquisar sobre “necessidade de reconhecimento” e encontrar o texto com os comentários. Parabéns, sinta-se reconhecido
Abs, André