28
Abr
08

A náusea

“Se não estou equivocado, se todos os indícios que se acumulam são precursores de uma nova reviravolta em minha vida, então tenho medo. Não que minha vida seja rica, nem preciosa. Mas sinto medo do que vai nascer, se apoderar de mim – e me arrastar para onde? Terei que partir novamente ou abandonar minhas pesquisas, meu livro? Despertarei, dentro de alguns meses, dentro de alguns anos, alquebrado, decepcionado, em meio a novas ruínas? Gostaria de me entender com exatidão antes que seja tarde demais.”

Sartre

16
Ago
07

Liberdade e Fuga

Ro:
eu queria voar
Ro:
pra bem longe
Fadinha :
eu tb
Ro:
o q isso significa?
Fadinha :
voar sem nenhum aparato…isso é o cúmulo da liberdade
Fadinha :
não sei… algo te sufoca?
Ro:
é fuga
Ro:
liberdade e fuga são irmãs tb
Fadinha :
é, é fuga.. mas de q? de quem?
Ro:
da sombra
Ro:
das marcas dos passos
Fadinha :
ixi… isso tá parecendo mania de perseguição
Ro:
de sí mesmo…

26
Jun
07

A necessidade de reconhecimento

Só concedemos o reconhecimento a um outro livremente e não forçados“. Rudolf Bultmann, Crer e Compreender

A necessidade de reconhecimento faz parte da natureza essencial do ser humano. É bom ser reconhecido. É bom ser estimado. Mas não é isso que me impele a escrever. Antes, é seu aspecto destrutivo, sua perversão. Refiro-me àqueles que querem ser reconhecidos pela sua própria robustez. Àqueles que pretendem violentar a apreciação do outro com base na própria realização. Àqueles que julgam estar o próximo em dívida pelo simples fato de terem sido “presenteados”. Trata-se de “um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos”.

O tipo pervertido, forçado, da necessidade de reconhecimento, por vezes gera repulsa. Que pode ser dupla. O que força descamba na aflição infantil de se julgar merecedor. E o forçado se sente usado. Lispector sintetiza com beleza essa importuna situação: “Ao me usar ela me machucava com sua força; ela me arranhava ao tentar agarrar-se às minhas paredes lisas.[1]

Essa situação só pode reverter com pura auto-entrega incondicional, em graça, destituída de toda vanglória e segundas intenções. Em liberdade, com aquele amor que se dá pelo próprio prazer criativo de se dar.

[1] Clarice Lispector, A Legião Estrangeira

30
Mai
07

Dádivas não conferem direitos

Contra os confiantes – Pessoas que nos dão toda a sua confiança acreditam, com isso, ter direito à nossa. É um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos.” Nietzsche, Humano, demasiado humano

06
Mai
07

Arrogância cega e obstinada

Mensagens recebidas no Orkut:
Vc é um PALHAÇO,o seu testemunho é podre,e que DEUS tenha misericordia da sua vida,porque,que ELE me perdoe mas eu não sei se teria contemplação p/ um elemento igual a vc!!!

Muito poético,mas como diria Sillas Malafaia(Que vc “adora”)se continuar vivendo assim,:Vai pro inferno,viu santo!!!

Já fui como vc,um “crítico reformado”,foi quando eu vi que não passava de um criticador s/ base,mas ainda é tempo de voltar ao 1° amor,pense nisso!!! há sim,se quiser se livrar de mim,só se deletar o perfil,pois se me ignorar eu crio outro perfil e continuo te mandando scraps até c se converter seu Herege safado!!!

O que ser isso senão provas de alguém reprimido, coibindo dúvidas por medo e insegurança? Mal sabe que ao julgar ele se deixa capturar, revelando-se. Se exercitasse a reflexão pensaria duas vezes ou mais à respeito de sua arrogância cega e obstinada.

Paul Tillich responde por mim: “Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí; mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa da segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.”

24
Mar
07

A espera, o ter e o não-ter

É evidente que o não-ser surge sempre nos limites de uma espera humana. É porque eu esperava encontrar mil e quinhentos francos que não encontro senão mil e trezentos.” Sartre, O ser e o nada, p 47

Será tão evidente assim? Sem dúvida, creio eu. Mas, não terá a espera um elemento de ser? Não terá a espera um ter e não-ter? Penso que sim.

O amante espera a amada. Na realidade o sujeito não dispõe da presença do objeto de sua admiração, mas ao mesmo tempo o tem. Ao mesmo tempo é possuído pelo sentimento de união além da separação, de participação além da ruptura. O próprio esperar é prova de que se tem, porque só se espera motivado pelo que já se possui.

O ruim da espera é que podemos ser surpreendidos pelo não-ser. O que esperamos pode não se concretizar. Mas, à despeito disso, é preciso coragem para vencer o medo, a angústia e ansiedade, consequências naturais do homem como ser finito.

E assim de espera também é nossa relação com Deus. Um ter e não-ter. Espera essa confessada de forma tão bela por Santo Agostinho: “Porque nos fizeste para Ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em Ti descanso.

25
Fev
07

Desnorteios do coração e do espírito

 

Não há homem que não se sinta mais lisonjeado em inspirar de repente um amor violento, do que fazê-lo nascer por degraus.Crébillon Fils, in “Os desnorteios do coração e do espírito”

Caro Crébillon, confesso que mentiria dizendo que não me sentiria lisonjeado, mas tenho medo. Você diz, anteriormente, que as mulheres crêem que a paixão, para ser forte, deve começar por uma pertubação violenta. Mas acredito que, infelizmente, muitos homens também pensam assim.

Por que tenho medo? Explico-me. É que isso me lembra “a Catarina”, de Kierkegaard: “o amante não pode explicar nada, não sabe explicar nada. Viu centenas de mulheres; deixou talvez passar muitos anos sem experimentar o amor; e um dia, de repente, vê a sua mulher, a única, a Catarina.” [1]

O segundo motivo pelo qual temo paixões violentas e inexplicáveis é que elas criam a ilusão de união. E, sem o amor, essa “união” deixa os estranhos tão distantes um do outro quanto antes. Quando essa súbita quimera se desfaz, sentimentos como rancor e vergonha são frequentes.

Não quero incorrer no estado pessimista nem no estado cômico do amante kierkegaardiano, mas manter uma pitada de serenidade no aprendizado da difícil e custosa arte de pretender vencer o estado de separação e alienação do ser humano, através do amor. Por degraus, por que não?

[1] Kierkegaard, O Banquete

24
Fev
07

A Existência é Separação

É este que é o estado de nossa existência inteira, desde seu início ao fim. Tal separação é preparada no útero da mãe, e antes disso, em cada geração precedente. É manifesto nas ações especiais de nossa vida consciente. Alcança além de nossas sepulturas em todas as gerações sucessivas. É nossa própria existência. A existência é separação!Paull Tillich, The Shaking of the Foundations, capítulo 19

Ler Capítulo completo aqui: http://xcorex.wordpress.com/traducoes/

24
Fev
07

Vivendo e aprendendo

“A queda não cancela a glória de ter subido” Pedro Barca, “Hombre Pobre todo es Trazas”

23
Dez
06

A arte de amar

O amor infantil segue o princípio: “Eu amo porque sou amado.” O amor maduro segue este outro: “Amo porque amo.” O amor imaturo diz: “Amo porque preciso de você.” O amor maduro diz: “Preciso de você porque te amo.” Erich Fromm, A arte de amar, p 51




Rodrigo Borges, Niterói-RJ

From Ro
"Coragem é auto-afirmação "a-despeito-de", isto é, a despeito daquilo que tente a impedir o eu de se afirmar." Paul Tillich

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