Mysterium Tremendum

Tarde de sábado e desço com um livro para uma caminhada literária. Pausa para um café expresso num ambiente desconhecido porém agradável, exceto o barulho de um desenho importuno. Trouxeram-me uma água quase sem gás, mas um café cremoso. Levanto-me, pago a conta e sigo para aquele banco à beira-mar. À sombra, frio; ao sol, calor. Encontro-me em meu destino. Dia quase perfeito! Declino a pesquisa ibope, não tenho tempo para isso. Aprecio o mar revolto azul límpido e encontro três tartarugas e jovens surfando. Ao lado casais namorando e, de repente, um pequeno cachorro me beija a perna. Olho para o céu e duas aeronaves sobrevoam bem acima de mim. Acompanho-as até que o sol me ofusca. Onze de Setembro, nove anos desde o atentado às torres gêmeas. Dia do inesperado, que coincidência. Inicio a leitura:
“Mas esse movimento eu não posso fazer. Tão logo eu queira começar, tudo se inverte, e me refugio na dor da resignação. Eu sou capaz de nadar na vida, mas eu sou muito pesado para essa elevação mística.” Kierkegaard, Temor e tremor.
Subitamente o inesperado acontece. Pasmo, coração a mil, impossível me foi conter uma ofensa. Surpreendo-me, então, com o barulho assustador e encontro-me completamente regado pela impetuosa onda do mar que assaltara o muro de contenção com a bravura de Poseidon, que a terra treme. Nos lábios sinto salgado o paladar, olho para o lado e uma senhora me sorri e diz: “fomos batizados.”
Perdoai-me, mãe Natureza, a blasfêmia.
Dia perfeito!
Amém.
A sabedoria de Hesíodo
Pequeno comentário nesta madrugada agradável:
“Tolos, eles não sabem quanto mais a metade é do que o todo, nem quão grande vantagem existe na malva e asfódelo.” Hesíodo, Trabalho e os dias, passo 40.
E, sem dúvida, concordou o Grilo Falante, lembrando do jovem Pinóquio…
A necessidade de reconhecimento
“Só concedemos o reconhecimento a um outro livremente e não forçados“. Rudolf Bultmann, Crer e Compreender
A necessidade de reconhecimento faz parte da natureza essencial do ser humano. É bom ser reconhecido. É bom ser estimado. Mas não é isso que me impele a escrever. Antes, é seu aspecto destrutivo, sua perversão. Refiro-me àqueles que querem ser reconhecidos pela sua própria robustez. Àqueles que pretendem violentar a apreciação do outro com base na própria realização. Àqueles que julgam estar o próximo em dívida pelo simples fato de terem sido “presenteados”. Trata-se de “um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos”.
O tipo pervertido, forçado, da necessidade de reconhecimento, por vezes gera repulsa. Que pode ser dupla. O que força descamba na aflição infantil de se julgar merecedor. E o forçado se sente usado. Lispector sintetiza com beleza essa importuna situação: “Ao me usar ela me machucava com sua força; ela me arranhava ao tentar agarrar-se às minhas paredes lisas.” [1]
Essa situação só pode reverter com pura auto-entrega incondicional, em graça, destituída de toda vanglória e segundas intenções. Em liberdade, com aquele amor que se dá pelo próprio prazer criativo de se dar.
[1] Clarice Lispector, A Legião Estrangeira
Dádivas não conferem direitos
“Contra os confiantes – Pessoas que nos dão toda a sua confiança acreditam, com isso, ter direito à nossa. É um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos.” Nietzsche, Humano, demasiado humano
Arrogância cega e obstinada
Mensagens recebidas no Orkut:
“Vc é um PALHAÇO,o seu testemunho é podre,e que DEUS tenha misericordia da sua vida,porque,que ELE me perdoe mas eu não sei se teria contemplação p/ um elemento igual a vc!!!““Muito poético,mas como diria Sillas Malafaia(Que vc “adora”)se continuar vivendo assim,:Vai pro inferno,viu santo!!!“
“Já fui como vc,um “crítico reformado”,foi quando eu vi que não passava de um criticador s/ base,mas ainda é tempo de voltar ao 1° amor,pense nisso!!! há sim,se quiser se livrar de mim,só se deletar o perfil,pois se me ignorar eu crio outro perfil e continuo te mandando scraps até c se converter seu Herege safado!!!“
O que ser isso senão provas de alguém reprimido, coibindo dúvidas por medo e insegurança? Mal sabe que ao julgar ele se deixa capturar, revelando-se. Se exercitasse a reflexão pensaria duas vezes ou mais à respeito de sua arrogância cega e obstinada.
Paul Tillich responde por mim: “Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí; mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa da segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.”
A espera, o ter e o não-ter
“É evidente que o não-ser surge sempre nos limites de uma espera humana. É porque eu esperava encontrar mil e quinhentos francos que não encontro senão mil e trezentos.” Sartre, O ser e o nada, p 47
Será tão evidente assim? Sem dúvida, creio eu. Mas, não terá a espera um elemento de ser? Não terá a espera um ter e não-ter? Penso que sim.
O amante espera a amada. Na realidade o sujeito não dispõe da presença do objeto de sua admiração, mas ao mesmo tempo o tem. Ao mesmo tempo é possuído pelo sentimento de união além da separação, de participação além da ruptura. O próprio esperar é prova de que se tem, porque só se espera motivado pelo que já se possui.
O ruim da espera é que podemos ser surpreendidos pelo não-ser. O que esperamos pode não se concretizar. Mas, à despeito disso, é preciso coragem para vencer o medo, a angústia e ansiedade, consequências naturais do homem como ser finito.
E assim de espera também é nossa relação com Deus. Um ter e não-ter. Espera essa confessada de forma tão bela por Santo Agostinho: “Porque nos fizeste para Ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em Ti descanso.“
Desnorteios do coração e do espírito
“Não há homem que não se sinta mais lisonjeado em inspirar de repente um amor violento, do que fazê-lo nascer por degraus.” Crébillon Fils, in “Os desnorteios do coração e do espírito”
Caro Crébillon, confesso que mentiria dizendo que não me sentiria lisonjeado, mas tenho medo. Você diz, anteriormente, que as mulheres crêem que a paixão, para ser forte, deve começar por uma pertubação violenta. Mas acredito que, infelizmente, muitos homens também pensam assim.
Por que tenho medo? Explico-me. É que isso me lembra “a Catarina”, de Kierkegaard: “o amante não pode explicar nada, não sabe explicar nada. Viu centenas de mulheres; deixou talvez passar muitos anos sem experimentar o amor; e um dia, de repente, vê a sua mulher, a única, a Catarina.” [1]
O segundo motivo pelo qual temo paixões violentas e inexplicáveis é que elas criam a ilusão de união. E, sem o amor, essa “união” deixa os estranhos tão distantes um do outro quanto antes. Quando essa súbita quimera se desfaz, sentimentos como rancor e vergonha são frequentes.
Não quero incorrer no estado pessimista nem no estado cômico do amante kierkegaardiano, mas manter uma pitada de serenidade no aprendizado da difícil e custosa arte de pretender vencer o estado de separação e alienação do ser humano, através do amor. Por degraus, por que não?
[1] Kierkegaard, O Banquete







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